
Toda cidade necessita de um equilíbrio entre os padrões de ocupação horizontais e verticais. Se por um lado a verticalidade inspira economicidade urbana, razão entre o custo da infra-estrutura e o número de pessoas que se beneficiam dela, a verticalidade pressupõe maior qualidade de vida, via de regra, compartilhada pela primeira. Entretanto, o custo de implantação e manutenção da infra-estrutura em regiões adensadas é maior, demandando redes de serviços públicos dimensionadas à demanda que se ampliam para o sistema viário, de transporte e de vias de ligação adequadas à geração de tráfego por elas proporcionada. Regiões verticalizadas demandam menos infra-estrutura, geram menos conflitos e são mais agradáveis para se viver. Somente em bairros tipicamente residenciais de baixa densidade é possível ver crianças brincando nas ruas e onde as relações de vizinhança e sociabilidade são mais presentes.
Na discussão deste tema é comum ver distorções colocadas ao público no sentido de que os movimentos que desejam preservar bairros horizontais são elitistas. Besteira! Existem bairros e regiões que desejam manter seu padrão de horizontalidade, sejam elas de alto ou baixo poder aquisitivo.
As vertentes de interesse e de demanda são basicamente oriundas da exploração e especulação imobiliária. São raras no Brasil as cidades que dispõe de um sistema de planejamento do seu território que ofereça razões justificadas suficientes para alterar os padrões de adensamento já existentes, a propósito, já elevados. As cidades do mundo que dispõe de um planejamento moderno procuram estabelecer o equilíbrio entre o padrão horizontal e o vertical.
Responsáveis pelo planejamento urbano propagam a anomalia em que tudo deve se verticalizar a título de otimizar a infra-estrutura existente. Que infra-estrutura? Onde ela esta presente que permita esta afirmação? Onde estão os memoriais justificativos que apóiem a solução ou proposta? Urbanizar virou sinônimo de produzir paliteiros num pequeno terreno, cuja perspectiva será o olhar de uma janela para outra janela, noutro prédio, destituindo o acesso à paisagem, estabelecendo uma clausura pela densidade volumétrica. Podemos imaginar nossa cidade como um amontoado de prédios? Sim, mas as cidades precisam dos bairros residenciais de baixa densidade, agradáveis compostos áreas verdes privadas ou públicas.
Devemos preservar os bairros tradicionais, com áreas residenciais notabilizadas pelos seus floridos e verdejantes jardins. No entanto, a lógica da exploração do território urbano coloca-os sob a mira da verticalização. Curiosamente se observa na venda de edifícios, como apelo comercial, o ganho da paisagem do bairro vizinho que os moradores criaram, plantaram e mantém. Essa é uma das contradições urbanas. Urbanistas têm perseguido, talvez utopicamente, a ampliação dos espaços públicos, o alargamento de calçadas, praças e parques, espaços de trocas e encontros, de eventos, solidariedade e sociabilidade como forma de contrabalançar a perda dos espaços pelo adensamento excessivo.
Quando eu era garoto, a rua era o espaço público disponível onde brincávamos. Nela andávamos de bicicleta, patins, patinete, jogávamos bola, pois não haviam as praças e, curiosamente, passados tantos anos ainda nos ressentimos delas. Hoje, ruas e calçadas transformam-se em estacionamentos, em tráfego de veículos, tornando-se perigosas, intransitáveis e, inseguras. A rua, como espaço residual de convivência, perde a identidade, as casas se transformam em consultórios e escritórios que ficam vazios a partir da 18 horas ou nos finais de semana. Prédios adensam como preconizado pelo Poder Público, sem que isto reproduza em melhoria ou qualidade. Quem resiste eleva seus muros, aquartelando-se, em contradição à idéia do próprio bairro.
Mais e mais pessoas necessitam de contato para combater a solidão. A vida moderna (computador, internet, TV, celular) e a insegurança conspiram contra a oportunidade de exercer esta sociabilidade. A rua, a praça, o verde, a inexistência da opressão das construções, lugares agradáveis como os existentes nos bairros residenciais, mesmo nos mais humildes, indicam que dispomos de vários oásis dentro da cidade e basta oportunizá-los. Tenho a sensação de que, se em algum momento nos forem proporcionadas as condições de oferecer espaços públicos, bairros bem cuidados e seguros, que permitam ampliar o contato, as relações humanas e sociais que temos perdido, veremos florescer cidades com maior auto-estima.
Sérgio Gollnick
Arquiteto e urbanista


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